No dia 27/out/2023 foi realizado um campo como parte das atividades do XIV Encontro dos Estudantes de Pós-Graduação em Geociências e Meio Ambiente, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp – Campus de Rio Claro.
O roteiro incluiu a visita de dois geossítios (descritos abaixo) do projeto Geoparque Corumbataí. O ponto de partida foi da entrada principal da UNESP, em Rio Claro. A grande maioria dos geossítios do Projeto Corumbataí estão contidos dentro dos limites da bacia hidrográfica do rio Corumbataí (ver figura e mapa abaixo). Acesse o site do Projeto Geoparque Corumbataí (https://geoparkcorumbatai.com.br/) para mais detalhes do projeto.
Figura acima: ilustração dos geossítios do Projeto Geoparque dentro dos limites da bacia do rio Corumbataí.
Abaixo é disponibilizado o mapa para visualização do trajeto e locais do campo realizado. Clique nos ícones para visualizar fotos e breve descrição dos pontos visitados durante o trajeto (são descritos com mais detalhes ao longo do blog):
1ª Parada: Geossítio mesossaurídeo ou pedreira dos mesossaurídeos
Este geossítio está localizado no distrito de Assistência, Rio Claro, e é uma pedreira desativada de exploração de calcário dolomítico da Formação Irati, usado para produção de corretivo de acidez de solos agrícolas. As fotos e o vídeo abaixo dão uma visão da extensão da cava e áreas adjacentes.
Algumas áreas adjacentes à pedreira compõem "bota fora" ou rejeito de mineração reabilitados.
A Formação Irati é uma sequência de rochas sedimentares de idade Permiana, compostas por rochas carbonáticas (calcário dolomítico (cálcio + magnésio)) associadas a folhelhos (argilitos laminados), ricos em matéria orgânica. Essas rochas teriam sido formadas em ambientes marinhos, como um golfo, com variações de salinidade na água e condições climáticas quentes. Esse antigo golfo marinho abrangia vastas extensões do sul da América do Sul e da África durante um período em que se acredita que esses dois continentes estivessem unidos (ver ilustração abaixo; KOLYA et al. 2022).
Abaixo seguem fotos e vídeo da pedreira mostrando com mais detalhes as camadas rochosas da Formação Irati, isto é, folhelhos (estratos escuros) e carbonatos (estratos claros) intercalados.
As ondulações ou dobras facilmente observáveis no talude da pedreira da foto acima estão associadas a processos de intemperismo, isto é, o afundamento progressivo das camadas está relacionado à dissolução de calcário. Águas meteóricas percolam planos de fratura e promovem a dissolução das rochas carbonáticas, sendo estruturas, portanto, reconhecidas como de origem atectônica (Dall'Acqua et al. 2023).
Fotos e vídeo acima: visão aproximada das rochas da Formação Irati na pedreira dos mesossaurídeos.
As rochas da Formação Irati abrigam fósseis do réptil pré-histórico mesossaurídeo (Stereosternum tumidum). Conforme ilustrado abaixo, esse réptil pré-histórico era adaptado à vida aquática e de pequeno porte.
Fósseis do mesossaurídeo são encontrados na América do Sul e na África (ver ilustração abaixo). Isto apoia a Teoria da Deriva Continental, constatando que a América do Sul e a África já estiveram juntas e se separaram (evidencia a quebra e separação do Gondwana).
A designação "Pedreira dos Mesossaurídeos" tem origem na abundância de fósseis desse réptil pré-histórico encontrados nas rochas da pedreira, como as costelas exibida na foto abaixo.
Costelas de mesossaurídeos num exemplar de rocha carbonática da pedreira.
2ª Parada: amostras de fósseis (a maioria de mesossaurídeos) em rochas da Formação Irati.
A segunda parada foi num galpão próximo a pedreira da 1ª parada, ainda no distrito de Assistência, onde estão guardados exemplares de rochas com fósseis retirados da pedreira supracitada. Segue abaixo fotos de alguns destes exemplares:
3ª Parada: Base dos morros do Cuscuzeiro e do Camelo, município de Analândia - SP.
Os morros do Cuscuzeiro e do Camelo são exemplos de Morro Testemunho, evidenciando que o relevo de "Cuestas" no passado abrangia uma área mais extensa. O processo de recuo das vertentes de forma paralela ao longo do tempo moldou sua configuração atual. Assim, a localização atual dos morros do Cuscuzeiro e do Camelo representam o antigo limite das escarpas da Cuesta.
A preservação dessa região é importante, pois está localizada próximo ao limite da bacia do rio Corumbataí (ver mapa acima), abrangendo parte das nascentes desse rio, além de ser área de recarga de aquíferos.
Os morros mencionados são sustentados pelo basalto da Formação Serra Geral, enquanto as escarpas revelam afloramentos de arenitos eólicos da Formação Botucatu, originados há cerca de 160 milhões de anos (no período Jurássico-Cretáceo). Naquela época, quando a América do Sul e a África ainda estavam unidas, a região era um vasto deserto de dunas de areia devido ao efeito da continentalidade.
Essas dunas formaram o arenito Botucatu, uma rocha sedimentar composta por grãos de tamanho semelhante ao da areia. As estratificações plano-paralela e cruzadas visíveis nos afloramentos evidenciam a origem dessa rocha, originada de antigas dunas que se deslocavam.
As rochas da Formação Botucatu apresentam excelente porosidade, sendo por isso, um excepcional reservatório natural de água subterrânea, que junto com a Formação Piramboia, constituem o Aquífero Guarani.
Entre 150 e 110 milhões de anos, o movimento das placas tectônicas que separou a América da África ocasionou fraturamento e rifteamento da crosta terrestre, que culminaram com a extrusão de grandes derrames de lava (magmatismo), constituindo a Formação Serra Geral. Nas camadas superiores das dunas, o calor dessas lavas provocou o metamorfismo de contato ou um "cozimento" e a silicificação das areias (cimentação por sílica), transformando o frágil arenito em uma rocha dura e resistente. A foto abaixo mostra uma porção de soleira de diabásio da Formação Serra Geral no front da escarpa, próximo ao morro do Camelo.
Foto acima: diabásios da Formação Serra Geral alterados. Estes só não são confundidos com arenitos por não conterem quartzo.
Referências
Dall'Acqua, I., ZAINE, J. E., TOGNOLLI, F. M. W., SOUZA, I. A., RIFFEL, S. H., MORALES, N. Dobras na Formação Irati, no parque geológico de Assistência (Rio Claro - SP): exemplo clássico de estruturas atectônicas. 17º Geo Sudeste, Rio de Janeiro, 2023.
KOLYA, A. A., ZAINE, M. F., PERINOTTO, A. J., ZAINE, J. E., REIS, F. A. G. V. Projeto Geoparque Corumbataí - a relevância do patrimônio geológico na valorização do território. FEBRAGEO, Belo Horizonte, MG, 2022.























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