terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Parque Estadual de Vila Velha, Ponta Grossa - PR

    Os atrativos do Parque Estadual de Vila Velha - PEVV, estado do Paraná, incluem a observação de feições de relevo cárstico em rochas não carbonáticas como nos arenitos do Grupo Itararé (Arenito Vila Velha) e das Furnas, curiosas dolinas ou poços de desabamento em arenitos da Formação Furnas.

    Na trilha pelo Arenito Vila Velha, observam-se afloramentos rochosos esculpidos pela ação de processos intempéricos e erosivos, formando muitas feições ruiniformes singulares, com destaque para a taça e o camelo (ver fotos e vídeo abaixo).

    A região do parque localiza-se próximo ao limite de dois importantes compartimentos geológico-geomorfológico: o Cinturão Orogênico do Atlântico e a Bacia do Paraná (geológico); Primeiro e Segundo Planalto Paranaense (geomorfológico). A Escarpa Devoniana, um típico relevo de cuesta, é a feição natural que separa os dois compartimentos. O parque localiza-se no reverso da Escarpa Devoniana, na porção leste do Segundo Planalto Paranaense numa área conhecida como Campos Gerais do Paraná  e dentro de uma unidade tectônica denominada Arco de Ponta Grossa.

Como chegar

    A entrada do parque fica no km 515 da BR-376, no Município de Ponta Grossa, aproximadamente 110 Km de Curitiba. Há um estacionamento amplo para carros próximo à sede do parque. A sede possui boa infraestrutura com banheiros, refeitório, loja e painel interpretativo da geologia local.

    Os passeios são acompanhados de guia e os ingressos, adquiridos na própria sede, custam em torno de R$ 30,00 (janeiro de 2019). A distância da sede do parque até o ponto de partida da trilha a pé do Arenito Vila Velha é em torno de 1 Km e um ônibus faz o translado dos visitantes até lá. Depois de lá o ônibus leva os visitantes às Furnas, cerca de 6 km dali.

    Explore o mapa abaixo para conhecer mais detalhes da trilha e os locais descritos ao longo do blog. Os ícones apontam fotos e detalhes do trajeto. Os dados vetoriais do mapa podem ser baixados (formato do KML) e utilizados em aplicativos de celular com GPS como o "My Maps" do Google:


Legenda: ícones azuis com símbolo de foto: detalhes da trilha com fotos; ícone vermelho com símbolo de foto: a taça; ícones vermelhos e laranja com símbolo de explorador: grutas e a furna 1; ícone amaralo: início da trilha a pé; ícone verde com símbolo de esquilo: foto do esquilo visto na trilha; ícone beje: sede do parque.

A caminho de Ponta Grossa, uma parada em Castro para uma refeição (chuleta) com a famosa "gasosa", refrigerante típico do Paraná, 03/01/2019.


Detalhes da sede do parque, 03/01/2019.

Painel interpretativo da geologia do Arenito Vila Velha e das Furnas, 03/01/2019.

Como se formou o Arenito Vila Velha?

    Há cerca de 300 milhões de anos, no Período Carbonífero, quando a América do Sul, África, Antártica, Oceania e Índia eram agrupados compondo o grande continente Gondwana, uma mudança brusca nas condições paleoambientais na região ocorreu e se instalou um ambiente glacial. O Grupo Itararé (Arenito Vila Velha) foi formado neste ambiente. As areias destas rochas se depositaram por meio do movimento de geleiras das áreas mais altas para mais baixas e, quando derretiam, morenas se formavam (depósitos de sedimentos abandonados pela geleira derretida). As enxurradas formadas pelo derretimento das geleiras transportavam e depositavam as areias que formaram o Arenito Vila Velha em lagos glaciais.

Detalhes da trilha

    O trajeto elíptico da trilha a pé é em tono de 2,5 km. Do ponto inicial até a taça, o ponto símbolo do parque, é em torno de 1 km (trilha do arenito). A grande maioria das feições ruiniformes do Arenito Vila Velha estão nesta primeira parte da trilha, em meio a vegetação mista predominantemente campestre. Da taça até o o fim da trilha (trilha do bosque), observa-se grutas formadas pelas fissuras das rochas em meio a vegetação mais densa (fotos abaixo). Todo o trajeto é de baixo nível de dificuldade.

Feições Ruiniformes dos Arenitos do Grupo Itararé ou Arenito Vila Velha

    As feições ruiniformes do arenito Vila Velha são resultado do intemperismo, processos erosivos e zonas de fraqueza naturais da rocha (falhas, fraturas e cimentação diferenciada) que veem esculpindo a rocha desde 1,8 milhão de anos atrás. Entre as feições de relevo ruiniforme encontram-se caneluras, cones de dissolução, topos pontiagudos, torres e pilares das quais a Taça é a mais conhecida, hoje símbolo da região (fotos abaixo).

    A cor avermelhada dos arenitos se deve a ação do óxido de ferro, que preenche os poros existentes cimentando a rocha. Camadas horizontais mais resistentes à erosão, revestida de material ferruginoso, contribui para a riqueza das formas encontradas.

Trilha do Arenito

Ponto de partida da trilha a pé, foto de julho de 1999.

Início da trilha a pé, instruções da guia, 03/01/2019.

                                           Detalhes do início da trilha, 03/01/2019.


Nas 2 fotos acima observa-se o avançado processo de decomposição dos arenitos: presença de vegetação como árvores, bromélias, musgos e líquens juntamente com a ação de organismos, animais e o clima intensificam o intemperismo físico, químico e a erosão. Notar fraturas horizontais e verticais nas rochas.

Rocha com feição ruiniforme escamada, 03/01/2019.


Feições ruiniformes (forma de camelo): foto anterior de 03/01/2019 e foto acima de jul/1999, enquanto estudante da Unesp de Rio Claro, 20 anos atrás.

Detalhes das feições ruiniformes, 03/01/2019.

Feição escamada da rocha lembrando um casco de tartaruga, 03/01/2019.


 Detalhes dos arenitos esculpidos nas 2 fotos acima. Notar sulcos formados pela ação da água, 03/01/2019.


Nas 2 fotos acima notar forma peculiar do arenito (torre) no horizonte das fotos. A foto acima é de jul/1999 e a anterior de 03/01/2019.

Os sulcos nas rochas à esquerda da foto podem ser testemunhos de paleocachoeiras. Notar a forma de "garrafa" no último sulco à esquerda da foto.

Detalhes dos arenitos esculpidos, 03/01/2019.

Detalhe do arenito em forma de torre no horizonte da foto, típico exemplo de erosão diferencial, 03/01/2019.


Detalhes da trilha no intervalo de 20 anos. A foto acima é de jul/1999 e a anterior de 01/03/2019.

Detalhes da trilha, 03/01/2019.


Detalhe da trilha no intervalo de 20 anos. Foto acima de jul/1999 e a anterior de 03/01/2019.




As fotos acima mostram várias formas peculiares dos arenitos. A foto acima é de jul/1999 e as 3 anteriores de 03/01/2019.



Detalhes do final da trilha do arenito, 03/01/2019.


A famosa taça símbolo do parque. Arenito ruiniforme em forma de torre, típico exemplo de erosão diferencial. O topo mais resistente aos processos intempéricos e à erosão do que a base do arenito resultado da cimentação diferenciada do óxido de ferro. Foto acima de jul/1999 e a anterior de 03/01/2019. 



Vídeo da trilha do arenito (3:30 de duração), 03/01/2019. 

Trilha do Bosque

Esquilo no coqueiro, 03/01/2019.

Fenda na rocha formando uma gruta, 03/01/2019.



As 3 fotos anteriores: fissura na rocha forma uma curiosa gruta, 03/01/2019.

Furnas

    As furnas do PEVV desenvolvem-se em rochas areníticas da Formação Furnas e, devido à dissolução dos minerais das rochas (cimento caulinítico), feições típicas de relevo cársticos são formadas (as maiores do Brasil em rochas não carbonáticas) como cavernas, dolinas, poços de dissolução e sumidouros.

    Na na área do parque há 6 dolinas, estando duas em estágio terminal por estarem quase que totalmente preenchidas de sedimentos (exemplo: lagoa dourada). Com exceção de uma Furna (Furna 3), de fundo seco, todas as demais estão interconectadas pelo atual nível de água subterrânea, revelando ampla circulação subterrânea de água entre as Furnas, através de uma rede de fraturas no arenito.





Furnas: um tipo de “poços de desabamento” ou “dolinas de abatimento”, formadas pela queda do teto de grandes cavidades subterrâneasAs fotos são de julho de 1999. A foto acima e a anterior referem-se à furna 1.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Chapada dos Guimarães - Rota das Cachoeiras

    O passeio pela Rota das Cachoeiras no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães inclui 5 cachoeiras e uma gruta conhecida como Casa de Pedra. Ao todo o trajeto percorre cerca de 7 km a pé passando pelas cachoeiras Andorinhas, Prainha, Degraus, Pulo e Sete de Setembro, todas de águas límpidas formadas pelo Córrego Independência, afluente do Rio Coxipó, este tributário do Rio Cuiabá. A gruta Casa de Pedra é o último ponto de visitação.

    Além de banhos refrescantes e das belezas das cachoeiras, o trajeto permite contemplar paisagens ruiniformes dos arenitos da Formação Furnas, identificar  fósseis de braquiópodos (conchas) em rochas da Formação Ponta Grossa e observar o contato discordante entre as rochas sedimentares da Formações Furnas e o seu embasamento representada pelas rochas metamórficas da Formação Cuiabá. Tudo isso em meio a vegetação típica do Cerrado.

    Os detalhes da trilha, das cachoeiras e da gruta são descritos abaixo.

Como Chegar

    O início do passeio é partir da sede do Parque Nacional da Chapadas dos Guimarães, cerca de 56 Km de Cuiabá. O circuito só é permito com acompanhamento de guias, o valor é em torno 70 reais por pessoa em novembro de 2019.

    Da entrada da sede do parque seguimos de carro por cerca de 600 metros sentido área urbana do Município de Chapada dos Guimarães até uma porteira que só guias autorizados podem abri-la. A partir da cerca percorre-se por uns 3 km de carro até o local onde os carros ficam estacionados e dá-se o início a trilha a pé (ver mapa abaixo).

    Explore o mapa abaixo para visualizar os locais descritos ao longo do blog. A linha vermelha refere-se ao trajeto de carro e a linha vermelha o trajeto a pé. Os ícones apontam fotos e detalhes do trajeto. Os dados vetoriais do mapa podem ser baixados (formato do KML) e utilizados em aplicativos de celular com GPS.


Detalhes do trajeto descritos no blog. Linha vermelha = trajeto de carro; linha amarela = trajeto a pé; ícones com principais atrativos e detalhes da trilha. 

Detalhes da trilha

    Do ponto do estacionamento até a primeira cachoeira, Cachoeira das Andorinhas, são cerca de 3,14 km de trilha a pé. Esse trecho da trilha é de baixo grau de dificuldade, apresentando subidas e decidas suaves (fotos abaixo).

Detalhe do início da trilha, 20/11/2019.

A trilha à direita da bifurcação leva a Cachoeira das Andorinhas, à esquerda leva a Cidade de Pedra e ao morro de São Jerônimo (também é ponto de retorno do passeio), 20/11/2019.

Detalhe da trilha, 20/11/2019.

Fósseis Braquiópodos da Formação Ponta Grossa

    Aproximadamente no quilometro 1,1 após o início da trilha a pé é possível identificar fósseis de braquiópodos (conchas) fossilizadas em rochas da Formação Ponta Grossa (ver fotos abaixo).

    A Formação Ponta Grossa constitui-se de siltitos e arenitos finos intercalados com conteúdo fossilífero, podendo essas rochas terem sido formadas em ambiente marinho de águas rasas no período Devoniano, em torno de 390 milhões de anos atrás.

    Os siltitos e arenitos finos quando inalterados são de tonalidade creme passando a avermelhadas e arroxeadas quando alterados. Nos siltitos são comuns conchas fósseis de braquiópodos.


Moldes de braquiópodos encontrado na trilha em rochas da Formação Ponta Grossa, 20/11/2019.

Moldes de braquiópodos entre os extratos pelíticos (ampliação da amostra da foto anterior),  20/11/2019.

Concha fóssil de braquiópodos litificada por óxido de ferro, 19/05/2012.

Concha fóssil de braquiópodos nos siltitos da Formação Ponta Grossa, 20/11/2019.


Feições Ruiniformes dos Arenitos da Formação Furnas

    Ao seguir pela trilha abaixo os afloramentos dos arenitos da Formação Furnas vão ocupando a paisagem.

    A rochas da Formação Furnas foram depositadas em ambiente marinho raso, dominado por maré e de energia moderada a alta (localmente influenciada por tempestade) no período Siluriano/Devoniano a cerca de 420 milhões de anos atrás.

    O contato inferior com as rochas do Grupo Cuiabá é por discordância angular, observável em vários trechos ao longo da trilha (fotos abaixo).

Afloramentos dos arenitos da Formação Furnas no horizonte da foto, 20/11/2019.


Detalhe de afloramentos dos arenitos da Formação Furnas assentados sobre as rochas metamórficas do grupo Cuiabá, 20/11/2019.

Afloramento rochoso da Formação Furnas com aspecto ruiniforme, 19/05/2012.

Detalhes dos arenitos brancos e arroxeados da Formação Furnas do afloramento da foto anterior, 19/05/2012.

Foto recente do mesmo afloramento da foto anterior, 20/11/2019.

O mesmo afloramento da foto anterior, 20/11/2019.

    Próximo à Cachoeira das Andorinhas, rochas do grupo Cuiabá são normalmente encobertas por coberturas detríticas relacionadas à couraças ferruginosas intemperizadas (Junior et al. 2011).

 Paisagem próximo à cachoeira das Andorinhas, 20/11/2019.

 Ampliação do solo da foto anterior, 19/05/2012. 

Foto tirada no mesmo local das 2 fotos anteriores com vista para o vale próximo à cachoeira Véu da Noiva, 20/11/2019.


Cachoeira das Andorinhas

Detalhe da cachoeira das Andorinhas, com cerca de 20 metros de queda d'água, 20/11/2019.

Cachoeira das Andorinhas, 19/05/2012.

    Seguindo o córrego Independência por poucos metros à jusante chega-se ao topo da cachoeira Independência (fotos a abaixo), com queda de cerca de 45 metros. A visitação à base da cachoeira está impedida por não possuir infraestrutura para turistas.

Córrego Independência poucos metros do topo da cachoeira de mesmo nome, 20/11/2019.

Vista do topo da cachoeira Independência, 20/11/2019.

    Seguindo a trilha acima por cerca de 500 m, à montante do córrego Independência, chegamos a cachoeira Prainha, passando pelas piscinas naturais e afloramentos rochosos da Formação Furnas (fotos abaixo).

Piscinas naturais não aberta a turistas pela profundidade das piscinas, 20/11/2019.

Ocorrência de afloramentos da Formação Furnas em meio a vegetação de cerrado em trecho da trilha até a cachoeira Prainha.

Cachoeira: Prainha

    Além dos banhos refrescantes, é possível observar o contato entre os arenitos conglomeráticos da Formação Furnas com os filitos do Grupo Cuiabá.

Detalhe da cachoeira Prainha, 20/11/2019.

Detalhe da piscina formada pela cachoeira Prainha, 19/05/2012.

    A próxima cachoeira seguindo a trilha acima por poucos metros, a montante do córrego Independência, é a cachoeira Degraus.

Cachoeira: Degraus


Fotos acima: detalhes da cachoeira Degraus, 20/11/2019.

    A próxima cachoeira seguindo a trilha acima por poucos metros, a montante do córrego Independência, é a cachoeira do Pulo.

Cachoeira: Pulo

Detalhe da cachoeira do Pulo, 20/11/2019.

Detalhe da parte superior da cachoeira do pulo, 20/11/2019.

    A próxima cachoeira seguindo a trilha acima por cerca de 700 metros, a montante do córrego Independência, é a cachoeira Sete de Setembro. No trecho caminha-se sobre arenito branco friável da Formação Furnas (ver fotos abaixo).

Arenitos brancos friáveis da Fm Furnas. Notar ponta de tenis na parte inferior da foto para referência, 20/11/2019.

Cachoeira: Sete de setembro

Detalhe da trilha próxima à cachoeira 07 de Setembro, 20/11/2019.

Cachoeira 07 de Setembro, 20/11/2019.

    O próximo e último atrativo turístico do passeio é a Casa de Pedra, cerca de 1,5 km de trilha acima a partir da cachoeira 07 de Setembro, a montante do córrego Independência. Seguem abaixo fotos de trechos da trilha.




Fotos acima: trechos da trilha da cachoeira 07 de Setembro até a Casa de Pedra (1,5 km), 20/11/2019.

Casa de Pedra

    É uma gruta formada por arenitos da Formação Furnas, esculpidas pelo córrego Independência com vestígios de inscrições rupestres.

    Foi possível observar o córrego Independência sendo totalmente "engolido" por uma fratura na rocha (fotos e vídeo abaixo). A observação do sumidouro total nesta época dá-se pelo baixo fluxo do córrego, ainda no início do período chuvoso (novembro).

    A cabeceira do córrego Independência ocorre próximo a área urbana do município de Chapada dos Guimarães, cerca de 5 km à montante da gruta.



Fotos acima: detalhes da gruta da Casa de Pedra formada por arenitos da Formação Furnas esculpidos, principalmente pela erosão fluvial, 20/11/2019.



Detalhe do sumidouro nas 3 fotos acima: córrego Independência sendo totalmente engolido pela fissura da rocha, 20/11/2019.



Vídeo detalhando o sumidouro, 20/11/2019.

Retorno 

    O passeio dura em torno de 4h podendo durar mais ou menos dependendo do tempo gasto nas cachoeiras e nos geossítios. A trilha é de baixa dificuldade, porém, o trajeto de 7 km é suficiente para fazer cansar.

Fim da trilha com o vista para o morro de São Jerônimo no horizonte da foto.

Veja também detalhes do passeio pelo Morro de São Jerônimo em: