sábado, 18 de novembro de 2023

Geossítios da Bacia do Rio Corumbataí - Projeto Geoparque

    No dia 27/out/2023 foi realizado um campo como parte das atividades do XIV Encontro dos Estudantes de Pós-Graduação em Geociências e Meio Ambiente, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp – Campus de Rio Claro.

    O roteiro incluiu a visita de dois geossítios (descritos abaixo) do projeto Geoparque Corumbataí. O ponto de partida foi da entrada principal da UNESP, em Rio Claro. A grande maioria dos geossítios do Projeto Corumbataí estão contidos dentro dos limites da bacia hidrográfica do rio Corumbataí (ver figura e mapa abaixo). Acesse o site do Projeto Geoparque Corumbataí (https://geoparkcorumbatai.com.br/) para mais detalhes do projeto.

Figura acima: ilustração dos geossítios do Projeto Geoparque dentro dos limites da bacia do rio Corumbataí.    

Abaixo é disponibilizado o mapa para visualização do trajeto e locais do campo realizado. Clique nos ícones para visualizar fotos e breve descrição dos pontos visitados durante o trajeto (são descritos com mais detalhes ao longo do blog):

Ícones azuis com símbolo de foto: fotos e breve descrição dos geossítios visitados;
Linha vermelha: trajeto percorrido;
Polígono amarelo: contorno da bacia hidrográfica do rio Corumbataí.     

1ª Parada: Geossítio mesossaurídeo ou pedreira dos mesossaurídeos

    Este geossítio está localizado no distrito de Assistência, Rio Claro, e é uma pedreira desativada de exploração de calcário dolomítico da Formação Irati, usado para produção de corretivo de acidez de solos agrícolas. As fotos e o vídeo abaixo dão uma visão da extensão da cava e áreas adjacentes.






Foto acima: exemplar de boneca de sílica, encontrada no local.

 

Algumas áreas adjacentes à pedreira compõem "bota fora" ou rejeito de mineração reabilitados.

    A Formação Irati é uma sequência de rochas sedimentares de idade Permiana, compostas por rochas carbonáticas (calcário dolomítico (cálcio + magnésio)) associadas a folhelhos (argilitos laminados), ricos em matéria orgânica. Essas rochas teriam sido formadas em ambientes marinhos, como um golfo, com variações de salinidade na água e condições climáticas quentes. Esse antigo golfo marinho abrangia vastas extensões do sul da América do Sul e da África durante um período em que se acredita que esses dois continentes estivessem unidos (ver ilustração abaixo; KOLYA et al. 2022). 

Ilustração do suposto ambiente deposicional e contexto geotectônico na ocasião da formação das rochas da Formação Irati cerca de 250 milhões de anos atrás (Período Permiano).

    Abaixo seguem fotos e vídeo da pedreira mostrando com mais detalhes as camadas rochosas da Formação Irati, isto é, folhelhos (estratos escuros) e carbonatos (estratos claros) intercalados.

As linhas vermelhas são divisões aproximadas do perfil de solo (Argissolo Vermelho Amarelo distrófico) no topo, camadas centimétricas alternadas de folhelhos pretos e carbonatos (calcários dolomíticos) no meio, e calcários dolomíticos na base.

    As ondulações ou dobras facilmente observáveis no talude da pedreira da foto acima estão associadas a processos de intemperismo, isto é, o afundamento progressivo das camadas está relacionado à dissolução de calcário. Águas meteóricas percolam planos de fratura e promovem a dissolução das rochas carbonáticas, sendo estruturas, portanto, reconhecidas como de origem atectônica (Dall'Acqua et al. 2023).





 

Fotos e vídeo acima: visão aproximada das rochas da Formação Irati na pedreira dos mesossaurídeos.

    As rochas da Formação Irati abrigam fósseis do réptil pré-histórico mesossaurídeo (Stereosternum tumidum). Conforme ilustrado abaixo, esse réptil pré-histórico era adaptado à vida aquática e de pequeno porte. 

    Fósseis do mesossaurídeo são encontrados na América do Sul e na África (ver ilustração abaixo). Isto apoia a Teoria da Deriva Continental, constatando que a América do Sul e a África já estiveram juntas e se separaram (evidencia a quebra e separação do Gondwana).

    A designação "Pedreira dos Mesossaurídeos" tem origem na abundância de fósseis desse réptil pré-histórico encontrados nas rochas da pedreira, como as costelas exibida na foto abaixo. 

Costelas de mesossaurídeos num exemplar de rocha carbonática da pedreira.

2ª Parada: amostras de fósseis (a maioria de mesossaurídeos) em rochas da Formação Irati.

    A segunda parada foi num galpão próximo a pedreira da 1ª parada, ainda no distrito de Assistência, onde estão guardados exemplares de rochas com fósseis retirados da pedreira supracitada. Segue abaixo fotos de alguns destes exemplares:




Foto acima: exemplar de tronco fóssil em calcário da Formação Irati.

3ª Parada: Base dos morros do Cuscuzeiro e do Camelo, município de Analândia - SP.

    Os morros do Cuscuzeiro e do Camelo são exemplos de Morro Testemunho, evidenciando que o relevo de "Cuestas" no passado abrangia uma área mais extensa. O processo de recuo das vertentes de forma paralela ao longo do tempo moldou sua configuração atual. Assim, a localização atual dos morros do Cuscuzeiro e do Camelo representam o antigo limite das escarpas da Cuesta.

     A preservação dessa região é importante, pois está localizada próximo ao limite da bacia do rio Corumbataí (ver mapa acima), abrangendo parte das nascentes desse rio, além de ser área de recarga de aquíferos.

Vista do Morro Testemunho do Cuscuzeiro da propriedade Pedra Viva.

Vista dos morros testemunhos do Camelo e Cuscuzeiro (ao fundo).

    Os morros mencionados são sustentados pelo basalto da Formação Serra Geral, enquanto as escarpas revelam afloramentos de arenitos eólicos da Formação Botucatu, originados há cerca de 160 milhões de anos (no período Jurássico-Cretáceo). Naquela época, quando a América do Sul e a África ainda estavam unidas, a região era um vasto deserto de dunas de areia devido ao efeito da continentalidade.

    Essas dunas formaram o arenito Botucatu, uma rocha sedimentar composta por grãos de tamanho semelhante ao da areia. As estratificações plano-paralela e cruzadas visíveis nos afloramentos evidenciam a origem dessa rocha, originada de antigas dunas que se deslocavam.

    As rochas da Formação Botucatu apresentam excelente porosidade, sendo por isso, um excepcional reservatório natural de água subterrânea, que junto com a Formação Piramboia, constituem o Aquífero Guarani.

   Entre 150 e 110 milhões de anos, o movimento das placas tectônicas que separou a América da África ocasionou fraturamento e rifteamento da crosta terrestre, que culminaram com a extrusão de grandes derrames de lava (magmatismo), constituindo a Formação Serra Geral. Nas camadas superiores das dunas, o calor dessas lavas provocou o metamorfismo de contato ou um "cozimento" e a silicificação das areias (cimentação por sílica), transformando o frágil arenito em uma rocha dura e resistente. A foto abaixo mostra uma porção de soleira de diabásio da Formação Serra Geral no front da escarpa, próximo ao morro do Camelo.   

Foto acima: diabásios da Formação Serra Geral alterados. Estes só não são confundidos com arenitos por não conterem quartzo.

Foto acima: ônibus da UNESP na propriedade Pedra Viva.

Referências

Dall'Acqua, I., ZAINE, J. E., TOGNOLLI, F. M. W., SOUZA, I. A., RIFFEL, S. H., MORALES, N. Dobras na Formação Irati, no parque geológico de Assistência (Rio Claro - SP): exemplo clássico de estruturas atectônicas. 17º Geo Sudeste, Rio de Janeiro, 2023.    

KOLYA, A. A., ZAINE, M. F., PERINOTTO, A. J., ZAINE, J. E., REIS, F. A. G. V. Projeto Geoparque Corumbataí - a relevância do patrimônio geológico na valorização do território. FEBRAGEO, Belo Horizonte, MG, 2022. 




quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Dolina Água Milagrosa, Cáceres - MT

    A Dolina Água Milagrosa é uma manifestação impressionante de feição cárstica contrastando com lago de águas claras e com a vegetação mista. Belas feições são formadas pela dissolução das rochas carbonáticas, observáveis durante a descida do "buraco" e durante o mergulho no lago.

    A dolina ocorre ao sul de uma região conhecida como Província Serrana, que é uma unidade geomorfológica de relevos serranos alongados e dobrados, moldados em rochas carbonáticas e siliciclásticas. Essa região se estende desde de Cáceres até Paranatinga, passando por Nobres e Rosário Oeste, formando um arco com convexidade para noroeste, facilmente identificado nas imagens de satélite.

    Além da dolina, outras feições cársticas significativas na forma de cavernas, lápies, grutas, locas, sumidouros e ressurgências ocorrem na região. O fenômeno da ressurgência, por exemplo, ocorre no rio Salobra no distrito de Bom Jardim em Nobres, local de vários atrativos turísticos.

    As rochas calcárias e dolomíticas, abundantes na região, são explotadas para a produção de corretivo de solos, brita, cal e cimento.

    A caminho da dolina a partir de Cáceres, serras com afloramentos rochosos dominam a paisagem (fotos abaixo). Essas paisagens também são observadas da rodovia BR-070 próximo a Cáceres, especialmente na região da serra do Mangaval (fotos abaixo).

Como chegar

    De Cuiabá a Cáceres são cerca de 218 Km. Da área urbana de Cáceres até a sede da pousada da dolina são cerca de 20 Km, sendo cerca de 8 Km de estrada não pavimentada (ver mapa abaixo).

    A pousada oferece restaurante, banheiros, piscina e hospedagem. O custo para fazer a trilha até o lago da dolina é de R$ 15,00 por pessoa. Para fazer a trilha e mergulhar no lago por duas horas é R$ 60,00 por pessoa (dezembro de 2019), com direito a coletes salva-vidas, caiaques e "stand up paddle". O almoço é R$ 30 para quem paga o mergulho no lago.

    Da pousada até o início da descida da dolina são cerca de 830 m e o translado dos visitantes é feito pelo proprietário num trator. A descida da dolina é de baixa dificuldade, facilitada por uma escada de madeira ao longo de todo o trajeto.

    Explore o mapa abaixo para conhecer mais detalhes das trilha e os locais descritos ao longo do blog. Os ícones apontam fotos e detalhes do trajeto. Os dados vetoriais do mapa podem ser baixados (formato KML) e utilizados em aplicativos de celular com GPS como o "My Maps" do Google:

Legenda: ícones azuis com símbolo de foto: detalhes da trilha, cortes de estrada e paisagens com fotos; ícones verdes com símbolo de mina: mineração de dolomito; ícone amarelo com a letra P: estacionamento; ícone laranja com símbolo trilha: início da descida da dolina.


Detalhes da pousada Dolina Água Milagrosa, 28/12/2019.

Detalhes da trilha

Dolina Água Milagrosa

    A dolina Água Milagrosa localiza-se ao norte da Serra do Quilombo, uma serra alongada (cerca de 82 Km de extensão) e dobrada, uma anticlinal modelada em rochas carbonáticas (dolomitos com intercalações subordinadas de arenitos, siltitos e argilitos calcíferos com níveis de sílex, concreções silicosas e brechas dolomíticas).

    De acordo com o dono da pousada o fundo da dolina não é conhecido, mas mergulhadores chegaram até próximo de 200 m de profundidade. O nível da água oscila em vários metros para baixo na época seca e para cima na época chuvosa, podendo a dolina ser uma área de recarga (entrada) ou de descarga (saída) de água subterrânea.

Início da descida da dolina, 28/12/2019.


As 2 fotos acima: detalhes da trilha, descida da dolina, 28/12/2019.




As 4 fotos acima: detalhes da descida da trilha, 28/12/2019.


As 2 fotos acima: feições cársticas com espeleotemas (estalactites) próximo à cavidade (caverna) no horizonte da foto, 28/12/2019.

Feições cársticas com falhas abundantes na rocha, 28/12/2019.

 

As 3 fotos acima: detalhes do mergulho no lago com profundidade desconhecida, 28/12/2019.

Serra Ponta do Morro e Serra Morro

    A caminho da dolina, já no trecho de estrada de terra, a sul e a leste do local da dolina, as serras Ponta do Morro e Morro se destacam na paisagem (fotos abaixo). Estas apresentam relevo serrano alongado e dobrado em anticlinal, com topos aguçados e abundantes entalhes associados aos regimes fluvial e pluvial, moldados em rochas sedimentares (arenito, siltito, arcóseo, argilito e conglomerado), estas sobrepostas às rochas carbonáticas.

Serra Ponta do Morro




As 4 fotos acima: detalhes da Serra Ponta do Morro com afloramentos rochosos dissecados, 28/12/2019. 

Serra Morro

Vista da Serra Morro a caminho da dolina Água Milagrosa. Os afloramentos rochosos são dolomitos, 28/12/2019.

Mineração

    Na região próxima a Cáceres, pela rodovia BR-070, observar-se, aproximadamente ao centro da Serra do Quilombo, pedreira de calcário dolomítico para produção de corretivo de solos e brita (foto abaixo).

Detalhes do talude de mina a céu aberto de calcário dolomítico na Serra do Quilombo, 28/12/2019.

Serra do Mangaval

    A serra do Mangaval está cerca de 38 Km da área urbana de Cáceres, sentido Cáceres-Cuiabá. Ela se destaca pelos afloramentos rochosos nos cortes de estrada ao longo de um trecho de cerca de 6 Km pela rodovia BR-070. Observam-se arenitos, folhelho e siltitos brancos e róseos intercalando-se, estratificações plano-paralelo e cruzada com fraturas horizontais, e trechos basculados (fotos abaixo).




 Fotos acima: Afloramentos rochosos nos cortes de estrada na rodovia BR-070. Notar os estratos de arenitos, folhelhos e siltitos intercalados, alternância de cores (branco a rósea), estratificação plano-paralela com fraturas horizontais, 28/12/2019.

Província Serrana

    A BR-070 corta a parte sul da Província Serrana em Cáceres. A paisagem neste trecho é dominada pelos relevos serranos alongados com afloramentos rochosos, como as fotos abaixo:

As 2 fotos acima: vista da Serra da Campina. Os afloramentos rochosos são dolomitos da Formação Araras, 28/12/2019.

Morros com afloramento de rochas sedimentares da Formação Raizama, 28/12/2019. 

Dicas

    A água do lago é de temperatura agradável e límpida, sendo possível observar os peixes de fora da superfície da água, porém, deve-se evitar o uso de protetor solar e outras substâncias, pois pode afetar a qualidade da água e causar impacto ambiental.